quinta-feira

Show das Poderosas

Esses dias ouvi de um amigo que na próxima vez que encontrasse com o dito cujo na rua deveria agradecê-lo. Vejo que sou obrigado a concordar com ele.

Apesar de toda dor e todo sofrimento que esse processo me fez passar, sobra espaço para uma auto-reflexão interna. Um momento de parar para perceber o que realmente vale a pena na vida e porque vale a pena. 

Reflito também sobre as futuras relações. Agora tenho a responsabilidade de fazer uma escolha mais cautelosa pois uma das poucas certezas que tenho na vida é que não quero passar por isso novamente. Sei que as vezes a vida não é tão previsível e nem tudo sai como nossos planos, mas tudo o que eu puder fazer para me prevenir desta dor eu farei. 

A constatação é que não vale a pena viver de sofrimento. Se minha escolha foi a vida, elaborar deve ser um imperativo. Ninguém vale a lágrima da rejeição. 

Penso que a busca por iguais pode ser uma solução, considerando que não vou sair falando algo tão intimo da minha vida por aí. Definitivamente essa não é minha escolha. Saber o que a pessoa pensa e seu histórico de reação diante do HIV podem fornecer pistas valiosas. 

Não se trata de fugir de potenciais candidatos a amores, mas se entregar a amores e pessoas que tenham capacidade de olhar pro meu coração e não apenas para minhas couraças. 

No processo seletivo da vida fui escolhido para elaborar isso e vivenciar um amor verdadeiro. Deixo o coração fazer o papel dele, mas tenho na razão a prevenção do sofrimento. Tudo isso deve ter um motivo que algum dia espero entender. 

Ninguém precisa passar por essa rejeição. Não vale a pena perder tempo com o que nos machuca. A vida é curta, por isso curta a vida. Estou disposto a ser feliz.  E o verdadeiro amor definitivamente é o amor próprio: base para nos tornar capaz de amar outras pessoas.


Obs.: Tenho aprendido muito com Anitta!! hehehehehe Prepara!!

Entrevista no DSL Blog


Recentemente recebi um convite muito especial: uma entrevista no DSL Blog. Inicialmente achava interessante a ideia de contar um pouco da minha história para outras pessoas pois acredito que dessa forma também compartilho um pouco de prevenção e alerto para o uso do preservativo. 
Mas a entrevista se superou. Despertou em mim uma vontade de falar... É como se o desejo da revelação batesse novamente na minha porta. 

Compartilho com vocês o a entrevista no DSL Blog. Obrigado Fernando!!

Entrevista DSL BLOG

terça-feira

Entrevista

Resposta da Irmã

Querido,

Te compreendo imensamente e quero muito te ajudar. Se você ainda se sente assim e quer contar, parar e conversar, vamos ver uma oportunidade em que isso possa acontecer. A minha única preocupação é que você quer que nossos pais te deem apoio e o meu receio é que você e, lógico eu também, que tenhamos que dar apoio a eles e seja uma preocupação a mais para você.
Mas estou do seu lado para a decisão que você quiser tomar. Tem que ser com um terreno bem preparado.
Você citou que tem uma doença e vive escondido por ela. Não encare assim. Você não tem uma doença e sim uma condição de vida que depende de medicação e controle para não adoecer. Encare assim que fica mais leve po peso que você sente.
O que você decidir estarei ao seu lado.
Te amoooooo!
 Beijão!


Irmã

quinta-feira

Carta à irmã

Irmã, 

Não quero mais suportar o peso de viver a margem. Não nasci para omitir isso que vivo na minha vida. Tenho um problema que não me permite ter apoio de meus pais. Até quando terei que viver na sombra de minha própria familia. Eu sofro todos os dias por não ter isso compartilhado e não sei mais se quero continuar assim. 

Na verdade não tenho me sentido feliz com isso. Vejo milhares de pessoas que passam por essa fase de falar, e depois vivem bem com seus familiares. Por que eu nunca poderei contar com apoio de minha mãe e do meu pai? 
Eu não estou mais suportando essa pressão e não quero viver mais nesta situação. Me sinto vítima do preconceito alheio. 

Sei que uma noticia com essa não é fácil pra ninguém, muito menos pra mim. Fico triste quando acha que eu vou falar para meus pais para tirar um peso de minhas costas. Não é bem por aí. 

Me sinto vítima de um preconceito introjetado por muitos que me cercam e que insistem em me colocar no lugar de vitimização. Me engessa, me faz eu me sentir menos. Uma doença que não me permite ter apoio, que me mantém escondido, como se o simples fato de existir fosse algo mal e que deve ser velado. No fundo ninguém está preparado para uma notícia dessas. Aliás, quem está preparado para a vida? 

O que você protege? Quem é protegido por isso? Me sinto golpeado a cada palavra que escuto de pessoas preconceituosas e o que eu posso fazer com relação a isso??? Ficar no breu? Aceitar que as pessoas são assim? 
Definitivamente não nasci pra ficar engessado neste lugar. 

Não sei mais por quanto tempo posso suportar. Espero que possa compreender minhas palavras. 

Te amo! 

domingo

Desistindo dos Antirretrovirais



- Quando estou puto e de saco cheio paro de tomar a medicação.
- Ok, você tem esse direito. Mas onde você quer chegar? O que vai mudar com isso? Isso vai tirar o vírus do seu cotidiano por um curto período, mas não vai mudar nada. Tome puto, ou não. Escolher viver requer sabedoria para administrar alguns sentimentos. 



Já conversei com algumas pessoas que em momento de desespero pararam com a medicação. Outras quando percebem alterações corporais fazem a mesma coisa. Mas infelizmente essa atitude não ajuda a diminuir os problemas da vida com HIV por mais que possa trazer um falso alivio psicológico. Pelo contrário, em menos de uma semana o vírus volta a se reproduzir de uma forma assustadora, podendo trazer num período relativamente curto o fim da vida.
O coquetel permitiu um controle maior do vírus e obviamente também traz algumas consequências, afinal não é fácil lidar com os colaterais. Às vezes eles só se manifestam nos exames alterando algumas taxas, o que exige do soropositivo uma vida que inclua alimentação saudável e atividades físicas. Essa mudança de comportamento auxilia do controle das taxas e retarda o aparecimento da lipodistrofia.
Não vou dizer que nunca pensei em parar de tomar a medicação. Isso já veio um milhão de vezes na minha cabeça, especialmente nos dias mais difíceis e solitários. Especialmente quando me percebo diferente.
Retornei ao médico da lipodistrofia na semana passada. Comparando os dados com o da última consulta não ocorreu nenhuma alteração grave. Aparentemente está tudo bem. Mas a forma como me percebo mudou. Minha autoimagem e autopercepção as vezes é distorcida por pensamentos automáticos que tenho conseguido controlar de forma eficaz.
Como eu faço esse controle? Sempre que percebo que meus pensamentos destrutivos se aproximam de mim (às vezes ocorre no espelho, às vezes ouvindo uma música, no banho, enfim... a tristeza não escolhe hora nem lugar) eu canalizo minha energia para minhas ações cotidianas. Tenho ocupado todo meu tempo livre com muitas atividades que variam de esportes ao lazer. Isso tem me feito muito bem, além de boas trocas de olhares para massagear o ego.
Não espero o fim de semana para me divertir. Hoje não recuso mais convites. Tento fechar a porta pra tristeza. Não na tentativa de fugir dela, mas na tentativa de elaborar os pensamentos que são sempre os mesmos nestes quase dois anos de HIV.
Para você que está pensando em parar com a medicação considere as seguintes observações:
1)      Quase sempre você terá que voltar a tomar antirretrovirais para continuar vivo;
2)      Conheço alguns casos que foram irreversíveis, que abriram oportunidades para doenças oportunistas que te deixam cego, surdo, doenças de pele, etc.
3)      Dependendo da situação, seu esquema não será mais suficiente para controlar o vírus, sendo muitas vezes necessário trocar de esquema – ou seja, possibilidade de novos colaterais (como os do início da medicação).
4)      O fato de parar com a medicação não reduz alguns efeitos colaterais como lipodistrofia, glicose alta, etc.
5)      Não vai mudar sua situação sorológica.
 Excetuando-se os casos de indicação médica, alergias, etc, nunca pare de tomar a medicação. Lembre-se que milhares de pessoas na África e em muitos países de outros continentes gostariam de ter a oportunidade de viver e simplesmente morrem por não terem acesso ao tratamento.
Se tiver triste ou pensando nesta possibilidade, converse com seu médico, psicólogo, amigo, me escreva! A vida sempre será mais forte que a Aids!

sábado

O porto



Tenho escutado muito uma música que traduz exatamente a forma atual de como tenho levado minha vida.
A certeza que se afirma é a de que não existe certeza. A vida é como uma navegação (acho que 80% dos meus leitores pensaram em internet, né blogayros?!)
Embora tenhamos objetivos (e isso é fundamental pois afinal para viver é necessário ter um projeto de vida) não se pode saber nunca o que vai ocorrer de fato.
Aprendi com o tempo a não viver de HIV, mas com ele. Entendo que ele faz parte de mim, já que mora em mim, mas não me confundo mais com ele. É um habitante não desejável, mas por enquanto não posso expulsá-lo. No barco da minha vida não quero viver a espera de icebergs.
Tenho sede de navegar. Sei por onde quero passar, mas não significa me ancorar. 


Escute essa música, sua letra e faça suas escolhas; aposte. Sempre vale a pena!